Noite de sexta-feira, 18 de Abril de 2008, véspera de um final de semana com um feriado na segunda-feira e outro na quarta-feira. Pessoas agitadas e ansiosas movimentando-se apressadamente pela cidade do Rio de Janeiro. Grande parte delas querendo chegar o mais rápido possível à rodoviária e iniciar viagens e passeios planejados para os próximos três ou cinco dias. Correria, euforia, foco no fim, meio conhecido, mas esquecido.
Entrei no ônibus coletivo logo no início de sua viagem, no bairro do Recreio dos Bandeirantes. Aos poucos foram entrando malas e pessoas prontas para viajar. Famílias, grupos e algumas pessoas sós. Uma mulher bem arrumada, com ar de felicidade misturada com ansiedade, gemeu para fazer subir a mala grande e pesada pela porta de trás. Logo apareceu sorridente vindo lá da frente pelo corredor do ônibus. Parou perto da mala, respirou fundo, puxou a calça pra cima, fez movimento com uma perna e depois com a outra, como se colocasse alguma coisa no eixo. Arrumou um lugar seguro para a mala e acomodou-se sentada com sua bolsa dourada de mão sobre as coxas, junto à barriga. Cruzou as mãos sobre a boca fechada da bolsa, deu uma ajeitada nos quadris e seguiu com olhar fixo no destino ainda distante. Sua boca ameaçava um sorriso de satisfação.
Eu estava com sono e dava uns cochilos sobre a mochila abraçada ao meu peito. Muitos faziam como eu e abraçavam suas mochilas gordas sobre as pernas e ao peito. Eu estava sentado ao lado da janela perto da porta de saída. Meu plano era chegar logo e sair logo. Também estava ansioso. Ao meu lado estava uma senhora de boca murcha, pele enrugada e oleosa, que vinha ali desde o início da viagem. Parecia cansada. O destino parcial da maioria era a rodoviária, mas o daquela senhora não era. Seu jeito dizia que não via a hora de chegar em casa. Deu sinal, levantou-se, arrumou a saia amassada na parte de trás, pegou as sacolas plásticas que estavam aos seus pés e desceu.
Tão logo aquela senhora desceu do ônibus, ouvi o som abafado e a pressão de ar que fez levantar um pouco o meu lado do estofado do banco. Tudo por causa do movimento de um homem preto, magro e longilíneo que se largou como se caísse sentado sobre o banco. Sentou-se de tal jeito relaxado que comunicava descaso com os acontecimentos ao seu redor. Olhou-me, porém, de lado, sem movimentar muito a cabeça.
Nada, contudo, tirou a minha atenção nos meus planos para o final de semana prolongado. Fui embriagado pela ocasião e não me dei conta que estava dentro de um coletivo recheado, na cidade do Rio de Janeiro, passando pela Avenida Brasil por volta das vinte e duas horas de uma sexta-feira atraente. Cochilei novamente e senti repassar na minha mente, em câmera lenta, o olhar do meu novo vizinho de banco. Antevi. Era tarde.
Fui despertado por umas pontadas externas nas minhas costelas, acompanhadas de uma voz zonza pedindo que eu emprestasse minha mochila, meu celular e minha carteira. Ainda perguntei o que era. Estava sem noção. Ouvi novamente, um pouco mais ameaçador, mas ainda em voz baixa e abafada na própria boca. -Não quer ser o primeiro a ser esculachado na bala não né? Cadê a carteira e o celular? Tentei mostrar intimidade e falei: calma meu irmão, tá limpo. Tá tudo aí na mochila. Abri a parte da frente pra ele e tirei o celular e a carteira. O celular ele abocanhou rápido com a mão faminta e guardou no bolso. A carteira ele abriu, tirou o dinheiro e mostrou-se contente. Aproveitei seu sentimento de satisfação e pedi, humildemente, para ele deixar a carteira, que somente ficara com meus documentos, para eu poder viajar na boa. Ele deixou. Tentei aproveitar mais um pouco e pedi cinqüenta reais emprestados. –Não meu irmão. Perdeu. Tudo ocorreu em dezenas de segundos. Ele levantou-se e aí minha atenção deu conta dos seus companheiros de operação naquela noite de sexta-feira gorda. Antes de se levantar, pediu quase ao pé do meu ouvido para que eu não anunciasse o empréstimo por nada. Se eu anunciasse, seria esculachado. Fez sinal em viva voz ao motorista para parar o ônibus. A porta se abriu. Desceram calmamente. Suas imagens de costas foram sumindo lentamente no escuro de um beco, encenadas com algumas olhadas para ambos os lados. Impressionaram-me seus andares altivos. Não me disse nada sobre quando devolveria o que havia tomado emprestado.
A mulher da bolsa dourada chorava e tremia de nervosa. Dizia não saber o que fazer sem os dois celulares e sem dinheiro. Eles pegaram tudo emprestado dela. Estava sem chão, como se não fosse mais ela sobre a face da terra. Seu olhar não tinha mais direção. Ela andou desequilibrada pelo corredor até lá na frente. O motorista ameaçou parar o ônibus. A maioria gritou para ele tocar em frente. Muitos estavam atrasados. A mulher da bolsa dourada voltou cambaleante segurando pelos canos dos encostos dos bancos. Chegou perto da sua mala grande e desabou no banco com uma das mãos na testa e a outra sobre a coxa.
O ônibus parou na rodoviária. Viu-se uma seqüência de olhares mútuos, vagarosos e silenciosos. Desencadeou-se uma seqüência de descidas, inicialmente indecisas, mas logo alteradas para rápidas e resignadas. A mulher da bolsa dourada ia para Vitória, no Espírito Santo. Disse, aos prantos, que lá ela tinha sua família. Ninguém quis ir para a delegacia registrar a ocorrência. Alguém argumentou: se eles agem assim com essa naturalidade, não adianta nada avisar a polícia. É só aporrinhação. Estamos perdidos na mão desses bandidos. O jeito é não dar mole, processar os governos, pagar impostos em juízo, para serem liberados aos governos somente quando tivermos padrões aceitáveis de segurança, saúde e ensino. Eu segui para os meus dias de folga no interior. Segui triste.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Abril Vermelho II - O Empréstimo
Postado por
OverLove
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10:41
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