Quando criança, eu brincava muito de pique esconde no quintal. Vivia correndo pelo quintal. Lá tinha um pedaço de ferro maciço cilíndrico, do tamanho de um antebraço adulto, com uma argola triangular numa das pontas. Meu irmão usava aquele ferro para fazer exercício físico. Ele queria criar muque e depois dos exercícios ele deixava o ferro pendurado num mourão que segurava o telhado de um rancho velho. O rancho cobria a caixa de lavar roupa que a gente usava como banheira no verão.
Um dia eu resolvi mudar o ferro de lugar e, com muito esforço, coloquei-o num outro gancho mais acima lá onde ele ficou pendurado. Na mudança eu esbarrei o ferro num saquinho de bolinhas de gude, que meu irmão também deixava pendurado ali no mourão. O saquinho caiu e as bolinhas se espalharam pelo chão, caprichosamente. De cara, ao ver aquelas bolinhas espalhadas, eu devo ter reclamado muito por dentro.
Eu tinha uns 12 ou 13 anos e, naquela época, meu pai me levava todos os domingos na igreja, desde bem novinho. Eu gostava de ir porque tinha uma turma de crianças da minha idade e todos se divertiam muito com as histórias, teatrinhos e brincadeiras. Eu ficava impressionado com a história do Jonas sendo engolido por uma baleia que era contada e encenada com uma baleia de pano abrindo um bocão e engolindo um bonequinho também de pano. Depois a baleia devolvia o Jonas para fora. Tinha também a do Daniel na cova dos leões. Depois da turma de crianças juntas por metade das manhãs de domingo, éramos levados lá num salão grande, junto com os adultos. Eu ouvia muito as orações, os cânticos e os sermões. Lembro que era comum nas orações pedirem proteção. A igreja fez parte da minha formação e meu pai colocou muito dos ensinamentos da igreja na minha educação.
Sabia que meu irmão ia ficar bravo comigo e tratei logo de catar as bolinhas. Agachei e fiquei como um sapo catando as bolinhas. Primeiro concentrei-me nas que estavam mais juntas no chão bem na direção abaixo de onde estava pendurado o pedaço de ferro. Demorou um pouco e acabei de catar as bolinhas ali na região do chão mais ao alcance das minhas mãos, entre os meus dois joelhos. Mantendo-me agachado como sapo, desloquei um pé para o lado e, junto com o deslocamento do outro pé para o mesmo lado, veio o meu corpo – costas e cabeça. Nesse momento eu tive um pequeno desequilíbrio e, para não cair sentado no chão, que estava molhado da chuva, tive que apoiar a mão, no chão, deslocando o braço direito um pouco para trás. Nesse segundo, senti um vento na orelha e, sem precisar mover a cabeça, vi o ferro afundar um pouco no chão logo ali debaixo dos meus olhos. Eu fiquei como estava: parado. Senti alguma coisa diferente com meu coração e com minha respiração. Pensei muito, mas rápido, naqueles segundos passados. Lembrei das orações. Não contei nada pra ninguém, porque era arte de criança e meu irmão era mesmo muito esquentado. Ainda hoje, dezenas de anos depois, ainda sinto uma quase dor daquele ferro na minha cabeça. Já não reclamo mais quando "sacos de bolinha caem e se espatifam pelo chão".
sábado, 10 de julho de 2010
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quinta-feira, 1 de maio de 2008
Abril Vermelho II - O Empréstimo
Noite de sexta-feira, 18 de Abril de 2008, véspera de um final de semana com um feriado na segunda-feira e outro na quarta-feira. Pessoas agitadas e ansiosas movimentando-se apressadamente pela cidade do Rio de Janeiro. Grande parte delas querendo chegar o mais rápido possível à rodoviária e iniciar viagens e passeios planejados para os próximos três ou cinco dias. Correria, euforia, foco no fim, meio conhecido, mas esquecido.
Entrei no ônibus coletivo logo no início de sua viagem, no bairro do Recreio dos Bandeirantes. Aos poucos foram entrando malas e pessoas prontas para viajar. Famílias, grupos e algumas pessoas sós. Uma mulher bem arrumada, com ar de felicidade misturada com ansiedade, gemeu para fazer subir a mala grande e pesada pela porta de trás. Logo apareceu sorridente vindo lá da frente pelo corredor do ônibus. Parou perto da mala, respirou fundo, puxou a calça pra cima, fez movimento com uma perna e depois com a outra, como se colocasse alguma coisa no eixo. Arrumou um lugar seguro para a mala e acomodou-se sentada com sua bolsa dourada de mão sobre as coxas, junto à barriga. Cruzou as mãos sobre a boca fechada da bolsa, deu uma ajeitada nos quadris e seguiu com olhar fixo no destino ainda distante. Sua boca ameaçava um sorriso de satisfação.
Eu estava com sono e dava uns cochilos sobre a mochila abraçada ao meu peito. Muitos faziam como eu e abraçavam suas mochilas gordas sobre as pernas e ao peito. Eu estava sentado ao lado da janela perto da porta de saída. Meu plano era chegar logo e sair logo. Também estava ansioso. Ao meu lado estava uma senhora de boca murcha, pele enrugada e oleosa, que vinha ali desde o início da viagem. Parecia cansada. O destino parcial da maioria era a rodoviária, mas o daquela senhora não era. Seu jeito dizia que não via a hora de chegar em casa. Deu sinal, levantou-se, arrumou a saia amassada na parte de trás, pegou as sacolas plásticas que estavam aos seus pés e desceu.
Tão logo aquela senhora desceu do ônibus, ouvi o som abafado e a pressão de ar que fez levantar um pouco o meu lado do estofado do banco. Tudo por causa do movimento de um homem preto, magro e longilíneo que se largou como se caísse sentado sobre o banco. Sentou-se de tal jeito relaxado que comunicava descaso com os acontecimentos ao seu redor. Olhou-me, porém, de lado, sem movimentar muito a cabeça.
Nada, contudo, tirou a minha atenção nos meus planos para o final de semana prolongado. Fui embriagado pela ocasião e não me dei conta que estava dentro de um coletivo recheado, na cidade do Rio de Janeiro, passando pela Avenida Brasil por volta das vinte e duas horas de uma sexta-feira atraente. Cochilei novamente e senti repassar na minha mente, em câmera lenta, o olhar do meu novo vizinho de banco. Antevi. Era tarde.
Fui despertado por umas pontadas externas nas minhas costelas, acompanhadas de uma voz zonza pedindo que eu emprestasse minha mochila, meu celular e minha carteira. Ainda perguntei o que era. Estava sem noção. Ouvi novamente, um pouco mais ameaçador, mas ainda em voz baixa e abafada na própria boca. -Não quer ser o primeiro a ser esculachado na bala não né? Cadê a carteira e o celular? Tentei mostrar intimidade e falei: calma meu irmão, tá limpo. Tá tudo aí na mochila. Abri a parte da frente pra ele e tirei o celular e a carteira. O celular ele abocanhou rápido com a mão faminta e guardou no bolso. A carteira ele abriu, tirou o dinheiro e mostrou-se contente. Aproveitei seu sentimento de satisfação e pedi, humildemente, para ele deixar a carteira, que somente ficara com meus documentos, para eu poder viajar na boa. Ele deixou. Tentei aproveitar mais um pouco e pedi cinqüenta reais emprestados. –Não meu irmão. Perdeu. Tudo ocorreu em dezenas de segundos. Ele levantou-se e aí minha atenção deu conta dos seus companheiros de operação naquela noite de sexta-feira gorda. Antes de se levantar, pediu quase ao pé do meu ouvido para que eu não anunciasse o empréstimo por nada. Se eu anunciasse, seria esculachado. Fez sinal em viva voz ao motorista para parar o ônibus. A porta se abriu. Desceram calmamente. Suas imagens de costas foram sumindo lentamente no escuro de um beco, encenadas com algumas olhadas para ambos os lados. Impressionaram-me seus andares altivos. Não me disse nada sobre quando devolveria o que havia tomado emprestado.
A mulher da bolsa dourada chorava e tremia de nervosa. Dizia não saber o que fazer sem os dois celulares e sem dinheiro. Eles pegaram tudo emprestado dela. Estava sem chão, como se não fosse mais ela sobre a face da terra. Seu olhar não tinha mais direção. Ela andou desequilibrada pelo corredor até lá na frente. O motorista ameaçou parar o ônibus. A maioria gritou para ele tocar em frente. Muitos estavam atrasados. A mulher da bolsa dourada voltou cambaleante segurando pelos canos dos encostos dos bancos. Chegou perto da sua mala grande e desabou no banco com uma das mãos na testa e a outra sobre a coxa.
O ônibus parou na rodoviária. Viu-se uma seqüência de olhares mútuos, vagarosos e silenciosos. Desencadeou-se uma seqüência de descidas, inicialmente indecisas, mas logo alteradas para rápidas e resignadas. A mulher da bolsa dourada ia para Vitória, no Espírito Santo. Disse, aos prantos, que lá ela tinha sua família. Ninguém quis ir para a delegacia registrar a ocorrência. Alguém argumentou: se eles agem assim com essa naturalidade, não adianta nada avisar a polícia. É só aporrinhação. Estamos perdidos na mão desses bandidos. O jeito é não dar mole, processar os governos, pagar impostos em juízo, para serem liberados aos governos somente quando tivermos padrões aceitáveis de segurança, saúde e ensino. Eu segui para os meus dias de folga no interior. Segui triste.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
condicionamento na mente
Quando estudei outro idioma, há cerca de 25 anos, utilizava a metodologia de repetir muitas e muitas vezes as frases, verbos, palavras e alguns diálogos curtos. Esse repetir era por meio de falar sozinho, em voz alta, o tempo todo, combinado ou não com escrever, ou somente por pensar. Não sei bem se foi por esse motivo, mas volta e meia eu me pego repetindo no pensamento palavras e frases sobre situações que aparecem no dia-a-dia. Mesmo depois de já ter passado tanto tempo, esse martelado repetir no pensamento não me abandona. Coisas inexplicáveis da mente? Tendência a alguma neurose ou já uma neurose? Conexões viciadas em componentes da minha rede neural? Apesar de tudo, ainda não percebo nenhum mal.
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
lágrimas e abraços.
Paro no sinal de trânsito perto da estação de trem. Vejo crianças fazendo malabarismos com bolinhas de tênis. Outros com limões. A nobreza e o azedo. Crianças encenando uma peça onde andam sem organização num palco de altos e baixos. Asfalto, calçadas e carros. Estou trancado dentro do carro com vidros escuros de fora para dentro. Choro sozinho e quieto. As crianças batem no vidro ao meu lado como pássaros cegos e famintos. Posso ver os seus olhos indefinidos e perdidos. Choro sozinho.
O menino tem uma mochila nas costas e uma bolsa de plástico segura pelas alças ao lado do corpo. Caminha lentamente pelo meio das pessoas na praia. É pouco percebido por todos. Senta para descansar à sombra de uma barraca. Abre a mochila e tira uma pipa. Sem ir muito longe, tenta de todas as maneira fazer a pipa voar. Não tem vento. Seguro a pipa no alto e longe para ajudá-lo. Ele percebe que não tenho intimidade com a pipa. Com muito jeito, ensina-me como devo segurar. Tenta levantar. A pipa sobe um pouco e logo cai. O sol está forte. O menino ri e olha-me manso. Não importa, está feliz porque brincou com a pipa. O pai chega perto e fala duro. –Eu trago você para me ajudar e não para brincar. O menino ri pra mim com os olhos tristes. A pipa ainda está sobre a areia. Num passo para trás, sem querer, piso na pipa com o calcanhar. Rasga junto o meu coração. O menino olha e diz manso: -não tem problema não. Eu conserto. Já consertei pipa assim. Dá pra voar muito ainda. Fala rindo. Tem os olhos tristes. Coloca o brinquedo na mochila e vai com a sacola de amendoim, agora segura com as duas mãos junto ao peito. Segue o pai pela areia quente e sob o sol forte. Usa um boné com a aba virada para as costas. Sinto um cordão de lágrimas deslizar, em pequenos degraus, de cada um dos meus olhos. Bem devagar, ambos disputam a descida pela pele do meu rosto e contornam os lados da minha boca. Algumas gotas vencem o caminho seco e salgado, caem pelos lados do meu queixo e somem na areia. Inúteis.
Vejo um pastor abraçar amorosamente seus fiéis. Abraça indistintamente. Não importa quem: homens e mulheres de todos os tipos, tamanhos, raças, estilos...Estou sentado com a cabeça curvada para baixo. Coluna reta. As mãos estão juntas, com todos os dedos entrelaçados, formando um V invertido apoiado sobre a virilha. Sinto as lágrimas brotarem por entre meus cílios longos e pingarem silenciosamente nas costas das minhas mãos. Gotejam já frias pelo tempo que descansaram nos meus cílios. Choro comigo. Ainda bem que você está ao meu lado.
Queria abraçar todas crianças do sinal e o menino da pipa.
Abraços singelos, inteiros, demorados e silenciosos para todos, indistintamente.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
educação do bem
No carnaval agora de 2008, conversei muito com uma senhora de 88 anos, que poderia ser minha mãe. Puxei assunto sobre sua infância, o que fazia de bom, seu relacionamento com os pais, brincadeiras, passeios, artes de criança, estudos...Ela me disse que ficava a maior parte do tempo em casa, onde brincava com bonecas de pano feitas pela mãe ou por ela mesma. As brincadeiras eram dentro de casa ou no quintal grande de terra. Suas saídas mais freqüentes, semanais, eram para ir à igreja aos domingos e, às vezes, em dias de semana. Ia sempre só com a mãe. Andavam léguas desde a fazenda onde moravam até a cidade. Lembrou o nome inteiro do Monsenhor e disse que gostava muito dos sermões. Lembrou os três nomes que a cidade teve até o atual. Gostava também de sair com o pai, que tinha o costume de levá-la junto nas visitas que fazia a pessoas doentes. O pai tinha esse costume de sair para visitar pessoas com alguma enfermidade e fazia questão de levá-la junto. Ela até preferia andar com o pai, porque a mãe tinha uma dificuldade auditiva. Suponho que isso atrapalhava a conversa entre elas e ela gostava de conversar durante as longas distâncias caminhadas. Logo que cresceu foi ajudar o pai nas tarefas da roça. Aprendeu a plantar, colher, cuidar da terra, cuidar da colheita e outras tarefas com animais e plantações. A mãe cozinhava bem e ela comia bem também. Aprendeu a cozinhar com a mãe. Comia coisas comuns da roça: arroz, feijão, milho, batata, mandioca, carnes das criações dali, farinha, frutas, leite.... Não estudou em escola. Não havia escola por perto. Aprendeu ler com o tio, que também viera da Itália para o Brasil com a mãe. Lembrou o nome todo do tio. Disse que quando ficou mocinha, percebeu que precisava aprender ler e escrever. Aprendeu bem e falou com prazer sobre as cartas que trocava com uma das filhas há cerca de 20 anos. A filha mora até hoje no norte do Brasil, enquanto ela ainda mora perto da cidade onde nasceu, no sul de Minas Gerais, próxima a fronteira com São Paulo. Não aprendeu fazer contas, mas quando perguntei-lhe sobre algumas contas básicas de somar e multiplicar, respondeu corretamente sem pensar muito. Aprendeu sozinha na convivência com os nove filhos. Com uma honestidade singela e comovente, disse que nunca apanhou, que não se lembrava de artes de criança e que todos eram muito obedientes aos pais. Não lembrava bem se sabia o que era desobedecer, desrespeitar, pedir o que não podia...naquela época. Lembrava só que nunca tinha apanhado dos pais. O barulho de uma criança, com quem a mãe brigava por perto, interrompeu o andar da nossa conversa. Ainda deu tempo dela voltar a atenção e falar: hoje é tudo diferente, tem escola, tem carro, tem brinquedo, os pais não têm paciência, os filhos não andam longe com o pai ou com a mãe para ir a igreja, para visitar doentes... As crianças não almoçam, não jantam... Só querem comer biscoito...Só querem saber de televisão, desse negócio de computador...Gritam com os pais. Os pais gritam com elas...Falava e pausava fitando o nada. Levantou lentamente o rosto pra mim -pude ver os olhinhos embaçados por trás das lentes- e riu mansamente, com um silêncio puro, alegre e triste.
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
beijo na boca
Um dia uma amiga pediu para eu descrever um beijo na boca. Nunca tinha pensado nisso, mas acabei escrevendo.
Beijo na boca tem que fluir como um rio deslizando por suas margens. Variar de intensidade, temperatura, volume, ritmo, direção, sentido, velocidade, comprimento, profundidade...assim como um rio faz desde sua nascente até desembocar no mar, dependendo das características do terreno por onde ele passa e da estação. Um beijo na boca tem que ser assim variável, mas, para dar alguns detalhes, gosto de beijar com muita língua, de lamber de forma dançante e descolada a língua, de acompanhar tudo como uma sinfonia de carinhos e contatos, como se sempre fosse um beijo pelado, de beijar com viradas de rosto rasgadas, com mudanças de chupadas nos lábios superiores, inferiores, dos lados. Gosto muito também de beijar com os rostos em cruz e invertidos. As alternâncias de velocidade, de pressão e de profundidade fazem um beijo incendiar o corpo. Beijo na boca tem que ser beijado e há quem beije gostoso e quem não, depende de gosto e, por isso, todo e qualquer beijo na boca pode ser muito bom, desde que termine no mar. E você, fale aí sobre o beijo na boca dos seus sonhos e como você beija na boca. Beijos com a técnica dos rios e com o final no mar para as mulheres que gostam de beijar.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
perdido em sonhos.
Sonho, freqüentemente, que perco o caminho de volta ou não encontro mais a casa ou hotel de onde saí. Saio de carro ou a pé e, quando preciso voltar, acontece de eu não conseguir mais achar a rua ou dá a impressão de que o lugar não está mais onde estava antes. Às vezes saio de táxi e, na volta, não tenho nem sei o endereço do lugar para falar taxista. Passo sempre por ruas, casas e hotéis parecidos, dá a sensação de estar perto, mas no final não consigo chegar. Parece que tiraram o lugar dali, porque fico com a imagem de que era ali. Dá agonia e a situação fica sombria, porque eu fico perdido num lugar que é quase o que eu procuro, mas não encontro. Tem explicação isso?
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vôo em sonhos.
Tenho alguns sonhos com temas que se repetem com freqüência. Por exemplo, sonho que posso voar e vôo. É muito bom sonhar que estou voando. Tem dois tipos de sonho com vôo que acontecem comigo:
Num deles, salto, decolo e vôo bem alto. Sobrevôo paisagens e cidades. Viajo voando. Algumas vezes parece que não vou me sustentar lá em cima, mas é só por uns momentos. Nunca aconteceu de eu cair. Nunca sonhei que estava pousando. Somente decolando e voando.
Tem um outro sonho onde vôo baixo, rente ao chão. Estou correndo e inicio um passo que parece interminável. Fico somente com os pés planando acima do chão. Com as pernas esticadas, como num passo flutuante. O movimento lembra o de atletas no salto em distância. Se fosse competir com esse meu sonho, seria imbatível. No sonho, parece que ganho muita velocidade nesse salto voador. Alguém sabe o que pode significar frequentemente voar em sonho?
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
um amor simples e leve.
Queria muito ter um único amor, mas isso não é uma questão de querer nem de ter. Um amor solto passa na frente da nossa porta. A nossa porta pode estar transparente ou não e pode estar fechada-trancada, fechada-encostada, meio-aberta ou escancarada. O estado de nossa porta depende de muitos fatores, que dependem de nós. Quais fatores? Além disso, tudo vai depender também do tipo de amor que passa pela porta. Quais tipos? Há também o papel do que há dentro da nossa porta... Será que há tantas variáveis assim? Não pode ser. Deve ser muito mais simples e leve. Quero um pensar assim: simples e leve. Quero um amor assim: simples e leve. Apareça meu amor simples e leve. Quero um esperar assim: simples e leve como o balançar dessas folhas que vejo pela janela. Hoje o céu está cinza. Chove. Ontem fez sol e o céu estava azul, mas foi só pela manhã. De tarde também choveu.
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coletivo de natal no país do carnaval
Rodoviária Novo Rio, 21/12/2007, 23h. Uma voz em ritmo estressado e ansioso anunciava: última chamada... “passagero” da viação...horário 22 “hora” e 50 “minuto”...plataforma.... O indivíduo insistia em anunciar, quase sem respirar, para os “passagero” e eu esperava a partida do 23h10min já em desespero. Pensei em procurar a sala de som e falar com o gerente. Desisti, porque no caminho tinha muita gente e estava quase na minha hora.
Continuei nervoso com a voz que volta e meia disparava anúncios aos “passagero”. Lembrei-me daquela voz sedutora e calmante do aeroporto. Lá somos Passageiros, mas estamos nas mãos do Ministro da Defesa, da Infraero, da ANAC, dos Controladores e das Empresas. A estrutura é grande, fica difícil cumprir horário e dane-se o coletivo, mas a voz é sedutora e calmante. Até certo ponto, ajuda o coletivo.
Entro no 23h10min para 7 horas de viagem dentro da noite. Acomodo a mochila. Cumprimento e peço licença à vizinha de assento. Sento-me lento, controlando a descida do corpo. Espero a completa acomodação dos indivíduos do banco de trás. Inclino o banco devagar, estágio a estágio, até ao máximo. Apagam-se as luzes. 23h15min, o ônibus parte. Nada mal. Inicio o relaxamento a caminho do sono. Espero pelo silêncio óbvio do coletivo. Com o início do silêncio, sobressai-se um som distorcido de rádio. Som ambiente do ônibus? Não, não tem sentido. Minha vizinha tem um rádio? Será? Pergunto-lhe acanhadamente se é dali o som de rádio. – É...Tá incomodando o senhor... Fico sem jeito com o jeito dela e pergunto-lhe se tem fone de ouvido. – Tem também...
Voltei ao encosto da poltrona. Eis que surge misturado ao som do rádio da vizinha um som chiado e mais distorcido ainda. Parecia axé e dava para distinguir “...levanta as mãozinhas por alto...agora...vamos...assim...” Não pode ser...Vem do banco de trás. Um fone de ouvido branco balançava no escuro. Era só o que eu conseguia ver. Estava na cabeça dançante de um indivíduo do coletivo. Levantei o pescoço e girei a cabeça para trás para ver se meu gesto dizia alguma coisa. Minha cervical herniada doeu, só isso.
Resolvi relaxar e dormir, já que gozar seria mais difícil ainda. Acordei com o choro de uma criança no meio do coletivo. A criança pedia a avó. – quero a vovó...quero a vovó...A Mãe começou bem calma dizendo – A gente está indo para a casa da vovó...logo...logo a gente vai chegar...a Mamãe está aqui meu amor...Não chora não...O choro da criança misturou com os sons chiados dos rádios varando a madrugada no coletivo.
Segui viagem brigando com o sono no desconforto daquele vazio que se fazia entre a minha lombar e o encosto da poltrona. Não sei se o problema é do encosto ou da minha coluna.
No meio de tudo apareceu um ronco grosso como o de um porco. Dava para imaginar um gordo papudo, dormindo de boca aberta, deixando o ar fazer trepidar o topo de sua garganta.
De repente, o coletivo ficou lento e entrou balançando como um elefante numa rua toda irregular e logo parou. O motorista desligou o motor. Fez aquele barulho de descompressão de ar. Não sei se é do freio...sei lá...Dava para distinguir mais ainda os sons chiados dos rádios e o ronco do papudo. A criança já tinha ficado calma. O motorista destrancou vigorosamente a porta entre sua cabine e o corredor do coletivo. A porta rangeu no escuro e deixou entrar um pouco de luz artificial de marquises iluminadas. Dava para ver somente a silhueta frontal do rosto redondo do motorista. Era um indivíduo gordo. Seu corpo largo tampava o visual porta afora. Só dava pra ver luz acima do seu ombro e um pouco perto dos pés. Ouviu-se o seu recado seco, – Parada de 20 minutos. Por favor, não se atrasem. Seguiu-se início de movimentação dentro do coletivo. Algumas vozes no escuro. Alguns espreguiçados com bocejos altos. Logo o corredor ficou entupido. A minha vizinha de poltrona desceu. O indivíduo do fone de ouvido também. O ronco parou. Logo eu peguei no sono e só acordei meio dormindo para ela entrar novamente no seu lugar. Acordei somente no destino daquele trecho.
Pouco mais de 6h da manhã. Corri para comprar passagem para uma cidade próxima. – Tem lugar somente no horário das 10h da manhã senhor. Está tudo lotado. Todo mundo resolveu viajar de ônibus com essa crise nos aeroportos senhor. Sento, relaxo e cochilo. Embarco no coletivo das 10h e chego no meu destino final por volta do meio dia. Viagem tranqüila. Dormi. Passei um natal feliz com a Família que mora longe. Um coletivo amoroso que compensou o desconforto do coletivo das 23h10min procedente do Rio com destino a Campinas. Mas será que tem que ser assim?
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