Um dia uma amiga pediu para eu descrever um beijo na boca. Nunca tinha pensado nisso, mas acabei escrevendo.
Beijo na boca tem que fluir como um rio deslizando por suas margens. Variar de intensidade, temperatura, volume, ritmo, direção, sentido, velocidade, comprimento, profundidade...assim como um rio faz desde sua nascente até desembocar no mar, dependendo das características do terreno por onde ele passa e da estação. Um beijo na boca tem que ser assim variável, mas, para dar alguns detalhes, gosto de beijar com muita língua, de lamber de forma dançante e descolada a língua, de acompanhar tudo como uma sinfonia de carinhos e contatos, como se sempre fosse um beijo pelado, de beijar com viradas de rosto rasgadas, com mudanças de chupadas nos lábios superiores, inferiores, dos lados. Gosto muito também de beijar com os rostos em cruz e invertidos. As alternâncias de velocidade, de pressão e de profundidade fazem um beijo incendiar o corpo. Beijo na boca tem que ser beijado e há quem beije gostoso e quem não, depende de gosto e, por isso, todo e qualquer beijo na boca pode ser muito bom, desde que termine no mar. E você, fale aí sobre o beijo na boca dos seus sonhos e como você beija na boca. Beijos com a técnica dos rios e com o final no mar para as mulheres que gostam de beijar.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
beijo na boca
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
perdido em sonhos.
Sonho, freqüentemente, que perco o caminho de volta ou não encontro mais a casa ou hotel de onde saí. Saio de carro ou a pé e, quando preciso voltar, acontece de eu não conseguir mais achar a rua ou dá a impressão de que o lugar não está mais onde estava antes. Às vezes saio de táxi e, na volta, não tenho nem sei o endereço do lugar para falar taxista. Passo sempre por ruas, casas e hotéis parecidos, dá a sensação de estar perto, mas no final não consigo chegar. Parece que tiraram o lugar dali, porque fico com a imagem de que era ali. Dá agonia e a situação fica sombria, porque eu fico perdido num lugar que é quase o que eu procuro, mas não encontro. Tem explicação isso?
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vôo em sonhos.
Tenho alguns sonhos com temas que se repetem com freqüência. Por exemplo, sonho que posso voar e vôo. É muito bom sonhar que estou voando. Tem dois tipos de sonho com vôo que acontecem comigo:
Num deles, salto, decolo e vôo bem alto. Sobrevôo paisagens e cidades. Viajo voando. Algumas vezes parece que não vou me sustentar lá em cima, mas é só por uns momentos. Nunca aconteceu de eu cair. Nunca sonhei que estava pousando. Somente decolando e voando.
Tem um outro sonho onde vôo baixo, rente ao chão. Estou correndo e inicio um passo que parece interminável. Fico somente com os pés planando acima do chão. Com as pernas esticadas, como num passo flutuante. O movimento lembra o de atletas no salto em distância. Se fosse competir com esse meu sonho, seria imbatível. No sonho, parece que ganho muita velocidade nesse salto voador. Alguém sabe o que pode significar frequentemente voar em sonho?
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
um amor simples e leve.
Queria muito ter um único amor, mas isso não é uma questão de querer nem de ter. Um amor solto passa na frente da nossa porta. A nossa porta pode estar transparente ou não e pode estar fechada-trancada, fechada-encostada, meio-aberta ou escancarada. O estado de nossa porta depende de muitos fatores, que dependem de nós. Quais fatores? Além disso, tudo vai depender também do tipo de amor que passa pela porta. Quais tipos? Há também o papel do que há dentro da nossa porta... Será que há tantas variáveis assim? Não pode ser. Deve ser muito mais simples e leve. Quero um pensar assim: simples e leve. Quero um amor assim: simples e leve. Apareça meu amor simples e leve. Quero um esperar assim: simples e leve como o balançar dessas folhas que vejo pela janela. Hoje o céu está cinza. Chove. Ontem fez sol e o céu estava azul, mas foi só pela manhã. De tarde também choveu.
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coletivo de natal no país do carnaval
Rodoviária Novo Rio, 21/12/2007, 23h. Uma voz em ritmo estressado e ansioso anunciava: última chamada... “passagero” da viação...horário 22 “hora” e 50 “minuto”...plataforma.... O indivíduo insistia em anunciar, quase sem respirar, para os “passagero” e eu esperava a partida do 23h10min já em desespero. Pensei em procurar a sala de som e falar com o gerente. Desisti, porque no caminho tinha muita gente e estava quase na minha hora.
Continuei nervoso com a voz que volta e meia disparava anúncios aos “passagero”. Lembrei-me daquela voz sedutora e calmante do aeroporto. Lá somos Passageiros, mas estamos nas mãos do Ministro da Defesa, da Infraero, da ANAC, dos Controladores e das Empresas. A estrutura é grande, fica difícil cumprir horário e dane-se o coletivo, mas a voz é sedutora e calmante. Até certo ponto, ajuda o coletivo.
Entro no 23h10min para 7 horas de viagem dentro da noite. Acomodo a mochila. Cumprimento e peço licença à vizinha de assento. Sento-me lento, controlando a descida do corpo. Espero a completa acomodação dos indivíduos do banco de trás. Inclino o banco devagar, estágio a estágio, até ao máximo. Apagam-se as luzes. 23h15min, o ônibus parte. Nada mal. Inicio o relaxamento a caminho do sono. Espero pelo silêncio óbvio do coletivo. Com o início do silêncio, sobressai-se um som distorcido de rádio. Som ambiente do ônibus? Não, não tem sentido. Minha vizinha tem um rádio? Será? Pergunto-lhe acanhadamente se é dali o som de rádio. – É...Tá incomodando o senhor... Fico sem jeito com o jeito dela e pergunto-lhe se tem fone de ouvido. – Tem também...
Voltei ao encosto da poltrona. Eis que surge misturado ao som do rádio da vizinha um som chiado e mais distorcido ainda. Parecia axé e dava para distinguir “...levanta as mãozinhas por alto...agora...vamos...assim...” Não pode ser...Vem do banco de trás. Um fone de ouvido branco balançava no escuro. Era só o que eu conseguia ver. Estava na cabeça dançante de um indivíduo do coletivo. Levantei o pescoço e girei a cabeça para trás para ver se meu gesto dizia alguma coisa. Minha cervical herniada doeu, só isso.
Resolvi relaxar e dormir, já que gozar seria mais difícil ainda. Acordei com o choro de uma criança no meio do coletivo. A criança pedia a avó. – quero a vovó...quero a vovó...A Mãe começou bem calma dizendo – A gente está indo para a casa da vovó...logo...logo a gente vai chegar...a Mamãe está aqui meu amor...Não chora não...O choro da criança misturou com os sons chiados dos rádios varando a madrugada no coletivo.
Segui viagem brigando com o sono no desconforto daquele vazio que se fazia entre a minha lombar e o encosto da poltrona. Não sei se o problema é do encosto ou da minha coluna.
No meio de tudo apareceu um ronco grosso como o de um porco. Dava para imaginar um gordo papudo, dormindo de boca aberta, deixando o ar fazer trepidar o topo de sua garganta.
De repente, o coletivo ficou lento e entrou balançando como um elefante numa rua toda irregular e logo parou. O motorista desligou o motor. Fez aquele barulho de descompressão de ar. Não sei se é do freio...sei lá...Dava para distinguir mais ainda os sons chiados dos rádios e o ronco do papudo. A criança já tinha ficado calma. O motorista destrancou vigorosamente a porta entre sua cabine e o corredor do coletivo. A porta rangeu no escuro e deixou entrar um pouco de luz artificial de marquises iluminadas. Dava para ver somente a silhueta frontal do rosto redondo do motorista. Era um indivíduo gordo. Seu corpo largo tampava o visual porta afora. Só dava pra ver luz acima do seu ombro e um pouco perto dos pés. Ouviu-se o seu recado seco, – Parada de 20 minutos. Por favor, não se atrasem. Seguiu-se início de movimentação dentro do coletivo. Algumas vozes no escuro. Alguns espreguiçados com bocejos altos. Logo o corredor ficou entupido. A minha vizinha de poltrona desceu. O indivíduo do fone de ouvido também. O ronco parou. Logo eu peguei no sono e só acordei meio dormindo para ela entrar novamente no seu lugar. Acordei somente no destino daquele trecho.
Pouco mais de 6h da manhã. Corri para comprar passagem para uma cidade próxima. – Tem lugar somente no horário das 10h da manhã senhor. Está tudo lotado. Todo mundo resolveu viajar de ônibus com essa crise nos aeroportos senhor. Sento, relaxo e cochilo. Embarco no coletivo das 10h e chego no meu destino final por volta do meio dia. Viagem tranqüila. Dormi. Passei um natal feliz com a Família que mora longe. Um coletivo amoroso que compensou o desconforto do coletivo das 23h10min procedente do Rio com destino a Campinas. Mas será que tem que ser assim?
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
eu queria brincar.
Hoje, assim sem saber porque, lembrei disso. Quando era criança, ali pelos 11 anos, vivia numa cidadezinha do interior e fui trabalhar numa loja de calçados. Não me lembro mais, mas devo ter ido muito contra-gosto. Um dia, vi meu irmão mais velho conversando com alguém na calçada bem em frente a loja que eu trabalhava. Eu procurei um lugar no campo de visão dele e comecei a esfregar uma flanela no balcão, fazendo uma cara triste, meio de choro. Fiquei ali um tempão fazendo aquilo e observando disfarçadamente de rabo de olho para ver se meu irmão estava me olhando. Eu queria mostrar pra ele como eu estava contrariado de estar ali trabalhando. Queria que ele contasse para meus Pais o que ele estava vendo. Eu queria dizer que eu queria brincar.
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insônia de amor
Não dormi direito mais uma vez. Passei a maior parte do tempo acordado. Meus dois braços pesavam e eu transpirava de calor. No pouco que dormi, sonhei que abraçava o corpo inteiro de uma menina, excitado. Era quase hora de começar o dia. Fiquei com sono. Levantei, mijei, escovei os dentes e voltei. Ela também levantou, fez xixi, escovou os dentes e voltou. Beijamo-nos, abraçamo-nos de corpo inteiro, acariciamo-nos, amamo-nos e conversamos sobre a noite de insônia. No meio da noite ela falou que ia embora para casa porque queria o meu amor, mas eu estava acordado com a cabeça no dormir. Tenho insônia, mas chega na hora de levantar para o trabalho e aí eu fico com muito sono.
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