sábado, 10 de julho de 2010

Proteção

Quando criança, eu brincava muito de pique esconde no quintal. Vivia correndo pelo quintal. Lá tinha um pedaço de ferro maciço cilíndrico, do tamanho de um antebraço adulto, com uma argola triangular numa das pontas. Meu irmão usava aquele ferro para fazer exercício físico. Ele queria criar muque e depois dos exercícios ele deixava o ferro pendurado num mourão que segurava o telhado de um rancho velho. O rancho cobria a caixa de lavar roupa que a gente usava como banheira no verão.

Um dia eu resolvi mudar o ferro de lugar e, com muito esforço, coloquei-o num outro gancho mais acima lá onde ele ficou pendurado. Na mudança eu esbarrei o ferro num saquinho de bolinhas de gude, que meu irmão também deixava pendurado ali no mourão. O saquinho caiu e as bolinhas se espalharam pelo chão, caprichosamente. De cara, ao ver aquelas bolinhas espalhadas, eu devo ter reclamado muito por dentro.

Eu tinha uns 12 ou 13 anos e, naquela época, meu pai me levava todos os domingos na igreja, desde bem novinho. Eu gostava de ir porque tinha uma turma de crianças da minha idade e todos se divertiam muito com as histórias, teatrinhos e brincadeiras. Eu ficava impressionado com a história do Jonas sendo engolido por uma baleia que era contada e encenada com uma baleia de pano abrindo um bocão e engolindo um bonequinho também de pano. Depois a baleia devolvia o Jonas para fora. Tinha também a do Daniel na cova dos leões. Depois da turma de crianças juntas por metade das manhãs de domingo, éramos levados lá num salão grande, junto com os adultos. Eu ouvia muito as orações, os cânticos e os sermões. Lembro que era comum nas orações pedirem proteção. A igreja fez parte da minha formação e meu pai colocou muito dos ensinamentos da igreja na minha educação.

Sabia que meu irmão ia ficar bravo comigo e tratei logo de catar as bolinhas. Agachei e fiquei como um sapo catando as bolinhas. Primeiro concentrei-me nas que estavam mais juntas no chão bem na direção abaixo de onde estava pendurado o pedaço de ferro. Demorou um pouco e acabei de catar as bolinhas ali na região do chão mais ao alcance das minhas mãos, entre os meus dois joelhos. Mantendo-me agachado como sapo, desloquei um pé para o lado e, junto com o deslocamento do outro pé para o mesmo lado, veio o meu corpo – costas e cabeça. Nesse momento eu tive um pequeno desequilíbrio e, para não cair sentado no chão, que estava molhado da chuva, tive que apoiar a mão, no chão, deslocando o braço direito um pouco para trás. Nesse segundo, senti um vento na orelha e, sem precisar mover a cabeça, vi o ferro afundar um pouco no chão logo ali debaixo dos meus olhos. Eu fiquei como estava: parado. Senti alguma coisa diferente com meu coração e com minha respiração. Pensei muito, mas rápido, naqueles segundos passados. Lembrei das orações. Não contei nada pra ninguém, porque era arte de criança e meu irmão era mesmo muito esquentado. Ainda hoje, dezenas de anos depois, ainda sinto uma quase dor daquele ferro na minha cabeça. Já não reclamo mais quando "sacos de bolinha caem e se espatifam pelo chão".