quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

condicionamento na mente

Quando estudei outro idioma, há cerca de 25 anos, utilizava a metodologia de repetir muitas e muitas vezes as frases, verbos, palavras e alguns diálogos curtos. Esse repetir era por meio de falar sozinho, em voz alta, o tempo todo, combinado ou não com escrever, ou somente por pensar. Não sei bem se foi por esse motivo, mas volta e meia eu me pego repetindo no pensamento palavras e frases sobre situações que aparecem no dia-a-dia. Mesmo depois de já ter passado tanto tempo, esse martelado repetir no pensamento não me abandona. Coisas inexplicáveis da mente? Tendência a alguma neurose ou já uma neurose? Conexões viciadas em componentes da minha rede neural? Apesar de tudo, ainda não percebo nenhum mal.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

lágrimas e abraços.

Paro no sinal de trânsito perto da estação de trem. Vejo crianças fazendo malabarismos com bolinhas de tênis. Outros com limões. A nobreza e o azedo. Crianças encenando uma peça onde andam sem organização num palco de altos e baixos. Asfalto, calçadas e carros. Estou trancado dentro do carro com vidros escuros de fora para dentro. Choro sozinho e quieto. As crianças batem no vidro ao meu lado como pássaros cegos e famintos. Posso ver os seus olhos indefinidos e perdidos. Choro sozinho.

O menino tem uma mochila nas costas e uma bolsa de plástico segura pelas alças ao lado do corpo. Caminha lentamente pelo meio das pessoas na praia. É pouco percebido por todos. Senta para descansar à sombra de uma barraca. Abre a mochila e tira uma pipa. Sem ir muito longe, tenta de todas as maneira fazer a pipa voar. Não tem vento. Seguro a pipa no alto e longe para ajudá-lo. Ele percebe que não tenho intimidade com a pipa. Com muito jeito, ensina-me como devo segurar. Tenta levantar. A pipa sobe um pouco e logo cai. O sol está forte. O menino ri e olha-me manso. Não importa, está feliz porque brincou com a pipa. O pai chega perto e fala duro. –Eu trago você para me ajudar e não para brincar. O menino ri pra mim com os olhos tristes. A pipa ainda está sobre a areia. Num passo para trás, sem querer, piso na pipa com o calcanhar. Rasga junto o meu coração. O menino olha e diz manso: -não tem problema não. Eu conserto. Já consertei pipa assim. Dá pra voar muito ainda. Fala rindo. Tem os olhos tristes. Coloca o brinquedo na mochila e vai com a sacola de amendoim, agora segura com as duas mãos junto ao peito. Segue o pai pela areia quente e sob o sol forte. Usa um boné com a aba virada para as costas. Sinto um cordão de lágrimas deslizar, em pequenos degraus, de cada um dos meus olhos. Bem devagar, ambos disputam a descida pela pele do meu rosto e contornam os lados da minha boca. Algumas gotas vencem o caminho seco e salgado, caem pelos lados do meu queixo e somem na areia. Inúteis.

Vejo um pastor abraçar amorosamente seus fiéis. Abraça indistintamente. Não importa quem: homens e mulheres de todos os tipos, tamanhos, raças, estilos...Estou sentado com a cabeça curvada para baixo. Coluna reta. As mãos estão juntas, com todos os dedos entrelaçados, formando um V invertido apoiado sobre a virilha. Sinto as lágrimas brotarem por entre meus cílios longos e pingarem silenciosamente nas costas das minhas mãos. Gotejam já frias pelo tempo que descansaram nos meus cílios. Choro comigo. Ainda bem que você está ao meu lado.

Queria abraçar todas crianças do sinal e o menino da pipa.

Abraços singelos, inteiros, demorados e silenciosos para todos, indistintamente.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

educação do bem

No carnaval agora de 2008, conversei muito com uma senhora de 88 anos, que poderia ser minha mãe. Puxei assunto sobre sua infância, o que fazia de bom, seu relacionamento com os pais, brincadeiras, passeios, artes de criança, estudos...Ela me disse que ficava a maior parte do tempo em casa, onde brincava com bonecas de pano feitas pela mãe ou por ela mesma. As brincadeiras eram dentro de casa ou no quintal grande de terra. Suas saídas mais freqüentes, semanais, eram para ir à igreja aos domingos e, às vezes, em dias de semana. Ia sempre só com a mãe. Andavam léguas desde a fazenda onde moravam até a cidade. Lembrou o nome inteiro do Monsenhor e disse que gostava muito dos sermões. Lembrou os três nomes que a cidade teve até o atual. Gostava também de sair com o pai, que tinha o costume de levá-la junto nas visitas que fazia a pessoas doentes. O pai tinha esse costume de sair para visitar pessoas com alguma enfermidade e fazia questão de levá-la junto. Ela até preferia andar com o pai, porque a mãe tinha uma dificuldade auditiva. Suponho que isso atrapalhava a conversa entre elas e ela gostava de conversar durante as longas distâncias caminhadas. Logo que cresceu foi ajudar o pai nas tarefas da roça. Aprendeu a plantar, colher, cuidar da terra, cuidar da colheita e outras tarefas com animais e plantações. A mãe cozinhava bem e ela comia bem também. Aprendeu a cozinhar com a mãe. Comia coisas comuns da roça: arroz, feijão, milho, batata, mandioca, carnes das criações dali, farinha, frutas, leite.... Não estudou em escola. Não havia escola por perto. Aprendeu ler com o tio, que também viera da Itália para o Brasil com a mãe. Lembrou o nome todo do tio. Disse que quando ficou mocinha, percebeu que precisava aprender ler e escrever. Aprendeu bem e falou com prazer sobre as cartas que trocava com uma das filhas há cerca de 20 anos. A filha mora até hoje no norte do Brasil, enquanto ela ainda mora perto da cidade onde nasceu, no sul de Minas Gerais, próxima a fronteira com São Paulo. Não aprendeu fazer contas, mas quando perguntei-lhe sobre algumas contas básicas de somar e multiplicar, respondeu corretamente sem pensar muito. Aprendeu sozinha na convivência com os nove filhos. Com uma honestidade singela e comovente, disse que nunca apanhou, que não se lembrava de artes de criança e que todos eram muito obedientes aos pais. Não lembrava bem se sabia o que era desobedecer, desrespeitar, pedir o que não podia...naquela época. Lembrava só que nunca tinha apanhado dos pais. O barulho de uma criança, com quem a mãe brigava por perto, interrompeu o andar da nossa conversa. Ainda deu tempo dela voltar a atenção e falar: hoje é tudo diferente, tem escola, tem carro, tem brinquedo, os pais não têm paciência, os filhos não andam longe com o pai ou com a mãe para ir a igreja, para visitar doentes... As crianças não almoçam, não jantam... Só querem comer biscoito...Só querem saber de televisão, desse negócio de computador...Gritam com os pais. Os pais gritam com elas...Falava e pausava fitando o nada. Levantou lentamente o rosto pra mim -pude ver os olhinhos embaçados por trás das lentes- e riu mansamente, com um silêncio puro, alegre e triste.