Rodoviária Novo Rio, 21/12/2007, 23h. Uma voz em ritmo estressado e ansioso anunciava: última chamada... “passagero” da viação...horário 22 “hora” e 50 “minuto”...plataforma.... O indivíduo insistia em anunciar, quase sem respirar, para os “passagero” e eu esperava a partida do 23h10min já em desespero. Pensei em procurar a sala de som e falar com o gerente. Desisti, porque no caminho tinha muita gente e estava quase na minha hora.
Continuei nervoso com a voz que volta e meia disparava anúncios aos “passagero”. Lembrei-me daquela voz sedutora e calmante do aeroporto. Lá somos Passageiros, mas estamos nas mãos do Ministro da Defesa, da Infraero, da ANAC, dos Controladores e das Empresas. A estrutura é grande, fica difícil cumprir horário e dane-se o coletivo, mas a voz é sedutora e calmante. Até certo ponto, ajuda o coletivo.
Entro no 23h10min para 7 horas de viagem dentro da noite. Acomodo a mochila. Cumprimento e peço licença à vizinha de assento. Sento-me lento, controlando a descida do corpo. Espero a completa acomodação dos indivíduos do banco de trás. Inclino o banco devagar, estágio a estágio, até ao máximo. Apagam-se as luzes. 23h15min, o ônibus parte. Nada mal. Inicio o relaxamento a caminho do sono. Espero pelo silêncio óbvio do coletivo. Com o início do silêncio, sobressai-se um som distorcido de rádio. Som ambiente do ônibus? Não, não tem sentido. Minha vizinha tem um rádio? Será? Pergunto-lhe acanhadamente se é dali o som de rádio. – É...Tá incomodando o senhor... Fico sem jeito com o jeito dela e pergunto-lhe se tem fone de ouvido. – Tem também...
Voltei ao encosto da poltrona. Eis que surge misturado ao som do rádio da vizinha um som chiado e mais distorcido ainda. Parecia axé e dava para distinguir “...levanta as mãozinhas por alto...agora...vamos...assim...” Não pode ser...Vem do banco de trás. Um fone de ouvido branco balançava no escuro. Era só o que eu conseguia ver. Estava na cabeça dançante de um indivíduo do coletivo. Levantei o pescoço e girei a cabeça para trás para ver se meu gesto dizia alguma coisa. Minha cervical herniada doeu, só isso.
Resolvi relaxar e dormir, já que gozar seria mais difícil ainda. Acordei com o choro de uma criança no meio do coletivo. A criança pedia a avó. – quero a vovó...quero a vovó...A Mãe começou bem calma dizendo – A gente está indo para a casa da vovó...logo...logo a gente vai chegar...a Mamãe está aqui meu amor...Não chora não...O choro da criança misturou com os sons chiados dos rádios varando a madrugada no coletivo.
Segui viagem brigando com o sono no desconforto daquele vazio que se fazia entre a minha lombar e o encosto da poltrona. Não sei se o problema é do encosto ou da minha coluna.
No meio de tudo apareceu um ronco grosso como o de um porco. Dava para imaginar um gordo papudo, dormindo de boca aberta, deixando o ar fazer trepidar o topo de sua garganta.
De repente, o coletivo ficou lento e entrou balançando como um elefante numa rua toda irregular e logo parou. O motorista desligou o motor. Fez aquele barulho de descompressão de ar. Não sei se é do freio...sei lá...Dava para distinguir mais ainda os sons chiados dos rádios e o ronco do papudo. A criança já tinha ficado calma. O motorista destrancou vigorosamente a porta entre sua cabine e o corredor do coletivo. A porta rangeu no escuro e deixou entrar um pouco de luz artificial de marquises iluminadas. Dava para ver somente a silhueta frontal do rosto redondo do motorista. Era um indivíduo gordo. Seu corpo largo tampava o visual porta afora. Só dava pra ver luz acima do seu ombro e um pouco perto dos pés. Ouviu-se o seu recado seco, – Parada de 20 minutos. Por favor, não se atrasem. Seguiu-se início de movimentação dentro do coletivo. Algumas vozes no escuro. Alguns espreguiçados com bocejos altos. Logo o corredor ficou entupido. A minha vizinha de poltrona desceu. O indivíduo do fone de ouvido também. O ronco parou. Logo eu peguei no sono e só acordei meio dormindo para ela entrar novamente no seu lugar. Acordei somente no destino daquele trecho.
Pouco mais de 6h da manhã. Corri para comprar passagem para uma cidade próxima. – Tem lugar somente no horário das 10h da manhã senhor. Está tudo lotado. Todo mundo resolveu viajar de ônibus com essa crise nos aeroportos senhor. Sento, relaxo e cochilo. Embarco no coletivo das 10h e chego no meu destino final por volta do meio dia. Viagem tranqüila. Dormi. Passei um natal feliz com a Família que mora longe. Um coletivo amoroso que compensou o desconforto do coletivo das 23h10min procedente do Rio com destino a Campinas. Mas será que tem que ser assim?

Um comentário:
Dei muitas risadas lendo essa historia . Adorei os detalhes . Viajo bastante para Campos e ouvi muito " passageros " rs .
As vezes dou sorte e vou com alguem legal e educado do lado . Mas as vezes .... como diria minha prima " só a mão do anjo " rs .
bjs
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