quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

educação do bem

No carnaval agora de 2008, conversei muito com uma senhora de 88 anos, que poderia ser minha mãe. Puxei assunto sobre sua infância, o que fazia de bom, seu relacionamento com os pais, brincadeiras, passeios, artes de criança, estudos...Ela me disse que ficava a maior parte do tempo em casa, onde brincava com bonecas de pano feitas pela mãe ou por ela mesma. As brincadeiras eram dentro de casa ou no quintal grande de terra. Suas saídas mais freqüentes, semanais, eram para ir à igreja aos domingos e, às vezes, em dias de semana. Ia sempre só com a mãe. Andavam léguas desde a fazenda onde moravam até a cidade. Lembrou o nome inteiro do Monsenhor e disse que gostava muito dos sermões. Lembrou os três nomes que a cidade teve até o atual. Gostava também de sair com o pai, que tinha o costume de levá-la junto nas visitas que fazia a pessoas doentes. O pai tinha esse costume de sair para visitar pessoas com alguma enfermidade e fazia questão de levá-la junto. Ela até preferia andar com o pai, porque a mãe tinha uma dificuldade auditiva. Suponho que isso atrapalhava a conversa entre elas e ela gostava de conversar durante as longas distâncias caminhadas. Logo que cresceu foi ajudar o pai nas tarefas da roça. Aprendeu a plantar, colher, cuidar da terra, cuidar da colheita e outras tarefas com animais e plantações. A mãe cozinhava bem e ela comia bem também. Aprendeu a cozinhar com a mãe. Comia coisas comuns da roça: arroz, feijão, milho, batata, mandioca, carnes das criações dali, farinha, frutas, leite.... Não estudou em escola. Não havia escola por perto. Aprendeu ler com o tio, que também viera da Itália para o Brasil com a mãe. Lembrou o nome todo do tio. Disse que quando ficou mocinha, percebeu que precisava aprender ler e escrever. Aprendeu bem e falou com prazer sobre as cartas que trocava com uma das filhas há cerca de 20 anos. A filha mora até hoje no norte do Brasil, enquanto ela ainda mora perto da cidade onde nasceu, no sul de Minas Gerais, próxima a fronteira com São Paulo. Não aprendeu fazer contas, mas quando perguntei-lhe sobre algumas contas básicas de somar e multiplicar, respondeu corretamente sem pensar muito. Aprendeu sozinha na convivência com os nove filhos. Com uma honestidade singela e comovente, disse que nunca apanhou, que não se lembrava de artes de criança e que todos eram muito obedientes aos pais. Não lembrava bem se sabia o que era desobedecer, desrespeitar, pedir o que não podia...naquela época. Lembrava só que nunca tinha apanhado dos pais. O barulho de uma criança, com quem a mãe brigava por perto, interrompeu o andar da nossa conversa. Ainda deu tempo dela voltar a atenção e falar: hoje é tudo diferente, tem escola, tem carro, tem brinquedo, os pais não têm paciência, os filhos não andam longe com o pai ou com a mãe para ir a igreja, para visitar doentes... As crianças não almoçam, não jantam... Só querem comer biscoito...Só querem saber de televisão, desse negócio de computador...Gritam com os pais. Os pais gritam com elas...Falava e pausava fitando o nada. Levantou lentamente o rosto pra mim -pude ver os olhinhos embaçados por trás das lentes- e riu mansamente, com um silêncio puro, alegre e triste.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que lindo. Lindo esse momento. Me faz lembrar das historias ma minha mãe. Ela morou no interior também. Teve uma vida bem simples e hoje é alguém que admiro muito. Não é muito ligada em coisas modernas. Não despreza, mas também não enche seus olhos.
Ela adorava (adora ainda) broa de milho e minha avó fazia para ela, enrolava em palha de milho e dava de presente de natal. Minha avó não podia comprar presente para todas as filhas então não comprava para nenhuma. Minha mãe conta com orgulho como eram felizes seus natais. Eu adoro as historias da minha mãe . Algumas eu sei do inicio ao fim, mas às vezes peço para ela contar de novo.
Minha avó me faz falta. Ela não esta mais aqui. Eu e meus irmãos fomos criados para saber ser feliz com aquilo que não é supérfluo.