segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

lágrimas e abraços.

Paro no sinal de trânsito perto da estação de trem. Vejo crianças fazendo malabarismos com bolinhas de tênis. Outros com limões. A nobreza e o azedo. Crianças encenando uma peça onde andam sem organização num palco de altos e baixos. Asfalto, calçadas e carros. Estou trancado dentro do carro com vidros escuros de fora para dentro. Choro sozinho e quieto. As crianças batem no vidro ao meu lado como pássaros cegos e famintos. Posso ver os seus olhos indefinidos e perdidos. Choro sozinho.

O menino tem uma mochila nas costas e uma bolsa de plástico segura pelas alças ao lado do corpo. Caminha lentamente pelo meio das pessoas na praia. É pouco percebido por todos. Senta para descansar à sombra de uma barraca. Abre a mochila e tira uma pipa. Sem ir muito longe, tenta de todas as maneira fazer a pipa voar. Não tem vento. Seguro a pipa no alto e longe para ajudá-lo. Ele percebe que não tenho intimidade com a pipa. Com muito jeito, ensina-me como devo segurar. Tenta levantar. A pipa sobe um pouco e logo cai. O sol está forte. O menino ri e olha-me manso. Não importa, está feliz porque brincou com a pipa. O pai chega perto e fala duro. –Eu trago você para me ajudar e não para brincar. O menino ri pra mim com os olhos tristes. A pipa ainda está sobre a areia. Num passo para trás, sem querer, piso na pipa com o calcanhar. Rasga junto o meu coração. O menino olha e diz manso: -não tem problema não. Eu conserto. Já consertei pipa assim. Dá pra voar muito ainda. Fala rindo. Tem os olhos tristes. Coloca o brinquedo na mochila e vai com a sacola de amendoim, agora segura com as duas mãos junto ao peito. Segue o pai pela areia quente e sob o sol forte. Usa um boné com a aba virada para as costas. Sinto um cordão de lágrimas deslizar, em pequenos degraus, de cada um dos meus olhos. Bem devagar, ambos disputam a descida pela pele do meu rosto e contornam os lados da minha boca. Algumas gotas vencem o caminho seco e salgado, caem pelos lados do meu queixo e somem na areia. Inúteis.

Vejo um pastor abraçar amorosamente seus fiéis. Abraça indistintamente. Não importa quem: homens e mulheres de todos os tipos, tamanhos, raças, estilos...Estou sentado com a cabeça curvada para baixo. Coluna reta. As mãos estão juntas, com todos os dedos entrelaçados, formando um V invertido apoiado sobre a virilha. Sinto as lágrimas brotarem por entre meus cílios longos e pingarem silenciosamente nas costas das minhas mãos. Gotejam já frias pelo tempo que descansaram nos meus cílios. Choro comigo. Ainda bem que você está ao meu lado.

Queria abraçar todas crianças do sinal e o menino da pipa.

Abraços singelos, inteiros, demorados e silenciosos para todos, indistintamente.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ia começar dizendo “Que bonito”. Mas soa impessoal ... Como alguém que vê a miséria e diz de maneira hipócrita “Ah coitadinhos”.
É lindo sim tudo que você escreveu. Os fatos são marcantes, e é marcante o que eles provocam em você. Às vezes me pergunto o porquê das coisas. Eles não tiveram escolhas e dependendo do desenrolar da vida estas escolhas ficarão ainda mais distantes
Gosto muito do ser humano adulto, mas amo crianças. Eu as amo demais.
Perto da minha rua tinha uma família que morava na calçada. Eu os conheci um tempo atrás quando passava para ir para a igreja.
A mãe estacionava os carros das pessoas que vão a um hospital que tem na rua. O pai cuidava das crianças (dois meninos) e ajudava a mãe.
Comecei a ir lá mais vezes. Pegava eles no colo. Nos finais de semana a rua era fechada para virar “área de lazer”. Daí eu ia para lá, brincava com eles, abraçava , levava frutas, biscoito e comida. Tentei arranjar um trabalho para os pais, mas não foi fácil. Eles gostavam da “boa vida” de morar na rua. Dinheiro fácil, droga, bebida.
Mas eu pensava: O Mateus e o Rodrigo não têm culpa.
Pensei em chamar a policia, mas eu sabia muito bem para onde eles iriam e seria pior ainda. Conheço bem o tal lugar por que vou lá pelo menos 3 vezes ao mês e quando volto não consigo dormir.
Depois de um tempo consegui um lugar para eles. Um lugar bom. O pai não sabe, só a mãe. Nem eu vou lá pois eles se apegaram demais a mim e tenho medo que por causa disso o pai descubra. E ele é perigoso.
Amo aqueles dois.
Sofro com tudo que faz uma criança sofrer. Agradeço muito a Deus por tudo que tive: Casa, amor, comida, afagos e educação. Queria poder fazer mais. Mas sou tão pequena .